A História

 
 
1985
(Julho/Agosto)
Pedro Ayres Magalhães, baixista dos Heróis do Mar (grupo que se encontra então no apogeu do seu sucesso), e Rodrigo Leão, baixista dos Sétima Legião, procuram quebrar o tédio que lhes provoca o circuito da pop portuguesa tentando fazer «um outro tipo de música».  Durante as pausas na agenda das duas bandas, encontram-se e começam a tentar compôr temas para duas guitarras acústicas. Pedro Ayres começa a escrever alguns textos, enquanto se imagina «uma voz» que os possa cantar. Gabriel Gomes, acordeonista dos Sétima Legião, junta-se a esses ensaios improvisados.
 
1986
(Outubro)
Francisco Ribeiro, um amigo de Pedro Ayres que estuda violoncelo no Conservatório de Lisboa, é convidado a entrar para a banda - mas continua a faltar-lhes uma voz, já que as audições com diversas cantoras nunca satisfazem plenamente os músicos. Numa noite em que visitam um velho bar do Bairro Alto, Rodrigo Leão e Gabriel Gomes são atraídos pela voz de uma jovem que subitamente começa a cantar o fado numa mesa de amigos. Conhecem assim a adolescente Teresa Salgueiro, que convidam para uma audição com o repertório que já possuem. Após os primeiros temas, os músicos percebem que tinham finalmente descoberto aquilo que procuravam. Pedro Ayres fica igualmente surpreendido quando regressa de uma viagem ao Brasil e ouve a cassete que os seus companheiros gravaram. Os primeiros ensaios regulares têm lugar nos arredores de Lisboa, na mesma sala utilizada pelos Heróis do Mar - mas que se revela completamente inadequada aos rigores do Inverno. Um amigo comum estabelece o contacto com a direcção do Teatro Ibérico, uma pequena companhia independente instalada numa ala do antigo Convento da Madre de Deus, em Xabregas, na zona oriental de Lisboa. Ensaiam normalmente à noite, após terminado o espectáculo da companhia e, entusiasmam-se com o som daquele espaço, e com os resultados obtidos.
 
1987
Ao longo da Primavera, os ensaios dos Madredeus transformam-se gradualmente no lugar de encontro de um pequeno grupo de lisboetas. Os amigos do grupo, bem como o círculo de amigos dos Heróis do Mar e dos Sétima Legião passam a reunir-se naquele local quase todas as noites, e o espaço adquire rapidamente um ambiente de «workshop»: os músicos pedem a opinião dos presentes, discute-se, sugerem-se ideias... Como o grupo não tem nome, os frequentadores habituais começam a referir-se a ele pelo nome do local - «Madredeus». Entretanto, Pedro Ayres Magalhães faz circular duas ou três cassetes com as canções do novo grupo, e tenta convencer os responsáveis da Valentim de Carvalho (que publicavam já os discos dos Heróis do Mar e dos Sétima Legião) a editar aquele trabalho. Porém, a grande empatia criada entre os quatro músicos e a jovem cantora, e a descoberta de um novo «som» (Rodrigo Leão começara, timidamente, a tocar sintetizador) aceleram o processo e a vontade: decide-se gravar naquele mesmo espaço, sem ter de esperar por um estúdio disponível, e Pedro convence a editora a apostar nessa produção original e inovadora. Entretanto, após ouvir uma das cassetes, o jovem escritor Miguel Esteves Cardoso publica um vibrante texto no semanário musical «Blitz», onde defende que «A música é um dos géneros da verdade» e os Madredeus a melhor esperança da nação. As sessões de gravação decorrem durante as noites de 28, 29 e 30 de Julho. Os 19 temas são registados digitalmente apenas em duas pistas, e o quinteto interpreta-os ao vivo, diante de alguns convidados. Para precaver qualquer ruído, os músicos tocam descalços, com almofadas debaixo dos pés, e as gravações são interrompidas sempre que na rua passa um carro eléctrico. Os Madredeus apresentam-se finalmente ao vivo nos dias 29 (Porto) e 30 de Novembro (Lisboa), na primeira parte do concerto em que os Sétima Legião apresentam o seu álbum «Mar de Outubro». 
 O acolhimento das audiências é, desde o início entusiástico, sobretudo pelo tema «A Vaca de Fogo»; mas também por aquela música exigir uma nova atitude de escuta por parte do público. Durante o primeiro concerto em Lisboa, uma avaria no sistema de PA faz com que o resto do concerto seja interpretado sem qualquer amplificação e obriga as 1500 pessoas presentes na Aula Magna a um esforço inesperado, que as deslumbra. Nas primeiras abordagens, o grupo declara que os arranjos instrumentais são inspirados na tradição da música popular portuguesa e que pretende reacender o gosto e o interesse pelo canto da língua portuguesa. E marca uma nova atitude: «Não somos um grupo, somos pessoas que se juntam para tocar» (Francisco Ribeiro); «As nossas canções nasceram quase de improvisações, foram criadas calmamente, algumas começaram por ser exercícios de aperfeiçoamento instrumental de todos nós. Nos espectáculos, queremos reduzir a tensão existente nas audiências e nos músicos. Queremos dar tempo para criar a música em palco e para que as pessoas que nos ouvem acompanhem essa criação» (Pedro Ayres Magalhães).
 Na primeira semana de Dezembro, é posto à venda o duplo álbum «Os Dias da Madredeus», produzido por Pedro Ayres Magalhães, que inclui 16 temas: «As Montanhas», «A Sombra», «A Vaca de Fogo», «Os Pássaros Quando Morrem Caem no Céu», «A Estrada do Monte», «Adeus... E Nem Voltei», «A Península», «A Cantiga do Campo», «Fado do Mindelo», «A Marcha da Oriental», «A Cidade», «Maldito Dia Aziago», «A Andorinha», «O Brasil», «O Meu Amor Vai Embora» e «Amanhã». O disco torna-se de imediato uma presença assídua nas rádios e nas colunas dos jornais, e uma referência obrigatória da música portuguesa. 
 
1988
Os Madredeus começam a ser insistentemente requisitados para concertos ao vivo em outras cidades portuguesas: Lisboa, Setúbal (ao ar livre diante de 8000 pessoas), Santa Maria da Feira, Lisboa, Évora, Lisboa, Barreiro, Reguengos, Viana do Castelo, Santa Maria (Açores), Lisboa, Cova da Piedade, Angra do Heroísmo (Açores), Aveiro, Lisboa, Sines e Coimbra. Ainda mal refeitos do deslumbramento provocado pela visita aos Açores, são convidados a integrar a delegação portuguesa à Bienal dos Jovens Artistas do Mediterrâneo, e assim, em Dezembro, viajam até Bolonha. Encantados com a cidade e com a presença de artistas de vários países (e de diversas artes), além dos dois concertos inicialmente previstos - que surpreendem positivamente a assistência - fazem vários «happenings» espontâneos durante a sua estadia, testando esboços de novas canções. Regressam a Lisboa para mais um concerto, a 22 de Dezembro, durante a Feira das Indústrias da Cultura. Neste ano fizeram também o seu primeiro videoclip para «A Vaca de Fogo» (realização de Paulo Miguel Forte).
 
 
1989
Superando todas as expectativas iniciais dos músicos, os Madredeus continuam a ser insistentemente requisitados. Regressam novamente aos Açores (Ponta Delgada e, mais tarde, Angra do Heroísmo), e tocam em Silves, Covilhã, Lisboa, Viseu e Évora. Em Junho viajam até à Coreia do Norte para actuarem no Festival da Juventude em Pyongyang. Nesse Verão, de novo em Lisboa, ficou na memória de todos o concerto na Igreja de São Luís dos Franceses, demasiado pequena para conter a multidão de admiradores que enchia também a rua em frente. Actuam depois em Odivelas, no Festival de Sagres, na vila do Crato e em Coimbra. Quando regressam a Lisboa, em Novembro, os Madredeus já apresentam novas canções no seu espectáculo, nem sempre interpretadas da mesma forma, ou com os mesmos arranjos. O público começa, porém a fixar os nomes dos temas novos - «Cuidado», «O Navio», «O Pomar das Laranjeiras» - enquanto a banda se prepara para uma segunda gravação. No último concerto do ano em Lisboa, na Aula Magna, a primeira parte é preenchida com os temas para dois sintetizadores, compostos por Nuno Canavarro e Carlos Maria Trindade, este último teclista dos Heróis do Mar (que entretanto suspenderam nesse ano as suas actividades) e companheiro de Pedro Ayres em aventuras musicais desde 1979. O local de ensaios do grupo desloca-se, do antigo convento da Madre de Deus para a Colectividade de Santa Catarina, junto do Castelo de São Jorge, com uma vista magnífica sobre a cidade de Lisboa e o rio Tejo.
1990
O álbum «Existir» é gravado a espaços nos estúdios Namouche, em Lisboa, entre Fevereiro e Abril. Ao fim de três anos, é a primeira experiência dos Madredeus em estúdio, e é aqui que conhecem António Pinheiro da Silva - antigo membro de duas bandas influentes nos anos 70, os Perspectiva e a Banda do Casaco, que se retirara dos palcos para prosseguir carreira como engenheiro de som e produtor. A empatia com ele criada resulta numa produção assinada por Pedro Ayres e António Pinheiro da Silva, que continuará a colaborar com os Madredeus até 1996. A 19 e 20 de Abril, apresentam as novas canções ao vivo no Cinema Tivoli: «Matinal» (onde se ouve pela primeira vez a excelente voz do violoncelista Francisco Ribeiro), «O Pastor», «O Navio», «Tardes de Bolonha» (um instrumental de Rodrigo Leão que resultou da viagem a Itália em 1988), «O Ladrão», «A Confissão», «O Pomar das Laranjeiras», «Cuidado», «As Ilhas dos Açores», «O Menino», «Solstício» e «A Vontade de Mudar». Em Maio fazem uma viagem relâmpago a Viena de Áustria e actuam diante do Burgomestre da cidade. Regressam a Portugal para novos concertos em Lisboa e nos restantes distritos. Neste ano visitam pela primeira vez Macau, e demoram o olhar pelo Extremo Oriente. É editado em CD o primeiro álbum, embora amputado do tema «A Cantiga do Campo», que ainda hoje apenas se encontra na versão original em vinil.
1991
A digressão de «Existir» prossegue, com actuações em Aveiro, Braga, Coimbra, Loures e Grândola. António Pinheiro da Silva tornou-se um companheiro permanente do grupo. Em Março rodam os videoclips de «Cuidado» e «O Pastor» (prod. Latina-Europa, realização Paulo Miguel Forte). No início de Abril, a convite da Câmara Municipal de Lisboa, viajam até Florença para actuarem durante uma Semana da Cultura Portuguesa. Regressam aos Açores (Ponta Delgada e Angra do Heroísmo) e voam depois para Barcelona, naquele que será o seu primeiro concerto em Espanha. Seguem-se Setúbal e o Coliseu dos Recreios de Lisboa - onde, a 30 de Abril, gravam o duplo álbum ao vivo «Lisboa» (o espectáculo foi também registado em video pela RTP), tendo como convidados o grande mestre da guitarra portuguesa, Carlos Paredes, e um coro de 80 vozes vindo expressamente dos Açores. Seguem-se depois as cidades de Guimarães, Porto e Matosinhos, e uma primeira viagem ao Rio de Janeiro. Antes do fim do ano e de uma primeira ida à Bélgica para actuarem durante a Europália/92, os Madredeus visitam ainda a Guarda, Évora, Macau, Almada, Viseu, Alpedrinha e Cascais.
1992
As novas canções vão ficando na memória de todos os que as ouvem. No início do ano os Madredeus têm diante de si uma extensa agenda de concertos programados para o estrangeiro e, embora a contragosto (mas, ao mesmo tempo, excitados pela ideia), quase não efectuam concertos em Portugal, à excepção de cinco datas em Lisboa, espaçadas ao longo do ano. Viajam então pela Bélgica (dois concertos em Brugge e um em Bruxelas, em paralelo com intensa actividade promocional do agente do grupo e dos responsáveis da EMI portuguesa junto dos seus colegas da Bélgica e do Benelux), e por França  (Printemps de Bourges, Rochelle e Toulouse). Actuam em Sevilha, na Expo-92, regressam a Bruxelas, passam por França (Blenod, Voiron e Brieux), vão à Suíça (Martigny), regressam de novo a França para actuarem pela primeira vez em Paris, e depois novamente à Bélgica (Hasselt, Grimbern, Aalst, Brugge, Turnhout, Gent e Kortrijk), onde a entusiasmada delegação local da EMI edita «Existir». Em Outubro visitam pela primeira vez o Japão para algumas apresentações promocionais. Depois voltarão uma vez mais a França (Grenoble e Rennes), actuam em Madrid e, também pela primeira vez, em Amsterdão. Antes do Natal é publicado em Portugal o duplo álbum ao vivo «Lisboa».
1993
No início deste ano, a agenda de concertos dos Madredeus cresceu desmesuradamente em relação a 1992. Em Janeiro vão à Alemanha apresentar o espectáculo em Friburgo, Berlim, Hamburgo, Dusseldorf, Frankfurt e Estugarda. Em Fevereiro, durante uma entrevista a um semanário lisboeta Teresa Salgueiro e Francisco Ribeiro afirmam: «No palco dizemos não à fome, à guerra e a toda a violência». Nesse mês regressam à Bélgica (onde o entusiasmo é crescente e o álbum «Existir» começa a subir nas tabelas de venda) para actuarem em Bruxelas (duas noites), Angoulême, Liége e Gent. Segue-se Espanha, com datas em Barcelona, Leon e Saragoça. A EMI decide lançar os Madredeus no circuito discográfico internacional. Viajam à Grécia para algumas apresentações promocionais («showcases»). Pedro Ayres, envolvido num projecto paralelo («Resistência»), convida o guitarrista José Peixoto a tomar o seu lugar como intérprete, nas actuações ao vivo. No entanto, os restantes músicos estranham a stuação, Pedro regressa e os Madredeus tornam-se um sexteto com dois guitarristas. Em Junho, actuam num estádio de futebol em Lisboa durante o festival «Portugal ao Vivo», diante de 50 000 pessoas. Joana Vicente realiza um novo videoclip para «O Pastor». Durante o Verão, o grupo efectua uma extensa digressão em França: Paris, Quimper, Loire, Vannes, Istres, Reims, Chartres, Sévres, St. Priest, Ile de Ré, Tarbes, Dijon, St. Barthélemy, Athis, Bordeaux, Quevelly, St. Thibaut, Montluçon, Lagny, Montelimar, Toulouse. Aproveitando uma pausa, Pedro Ayres Magalhães conduz os Madredeus numa visita ao santuário neolítico de Carnac. Mais tarde, regressam à Grécia, para apoiar o lançamento do disco neste país, e actuam em Atenas, Salónica, Rodes e Creta. Em Setembro vão à Holanda: Amsterdão, Gronigen e Eindhoven. Em Outubro deslumbram-se com a sua primeira temporada de concertos no Japão: Tóquio, Osaka, Amakusa e de novo Tóquio. Antes de regressarem a Lisboa, passam ainda pelo Luxemburgo e pela Suíça (Lausanne e Mulhouse). E em Dezembro satisfazem finalmente os fãs portugueses, amargurados por uma tão longa ausência, e actuam na Covilhã, em Coimbra, no Funchal (Ilha da Madeira), Viseu, Guimarães, Macau, Sintra e finalmente Lisboa - onde beneficiam de uma recepção apoteótica durante quatro noites no Centro Cultural de Belém. Rodrigo Leão publica entretanto o álbum «Ave Mundi Luminar», o seu primeiro trabalho a solo.
1994
O cansaço não foi a única coisa que os Madredeus acumularam durante o ano de 1993. Em finais de Janeiro, após uma breve pausa de duas semanas, tudo volta ao princípio. A banda volta a reunir-se (trocando desta vez o anterior local de ensaios pela casa de Gabriel Gomes) para trabalhar novos temas e procurar utilizar a música como forma de atribuir um sentido às experiências entretanto acumuladas. Neste período, o grupo faz uma breve incursão em estúdio para gravar uma versão de «Maio, Maduro Maio» que será incluída no álbum de homenagem a José Afonso, «Filhos da Madrugada». Pedro Ayres Magalhães é abordado pelo cineasta alemão Wim Wenders, que prepara um filme sobre Lisboa (neste ano a cidade é Capital Europeia da Cultura), e quer utilizar alguns temas dos Madredeus na banda sonora. Em Março, os músicos, com António Pinheiro da Silva e Jonathan Miller (um engenheiro de som britânico há alguns anos radicado em Lisboa) voam para Inglaterra e recolhem-se nos estúdios Great Linford Manor, situados em pleno campo. Ali tomam forma os temas do novo álbum, e germina a ideia de criar músicas originais para o filme de Wenders, enquanto os contactos entre Pedro e o realizador (que, entusiasmado, aceita a ideia) evoluem para a discussão sobre o papel que o grupo poderá desempenhar no filme, e em que contexto. Mais tarde descem até Londres e finalizam o trabalho nos Lansdowne Recording Studios. Tudo está terminado no dia 5 de Maio: em vez de um álbum, fizeram dois, para espanto dos responsáveis da editora, que foram apanhados de surpresa. O primeiro será editado ainda na Primavera, e o seu título resume as impressões mais frequentemente transmitidas pelos públicos estrangeiros acerca das canções do grupo - «O Espírito da Paz». As novas canções são apresentadas em primeira mão à imprensa belga durante um espectáculo privado numa bonita igreja de Bruxelas.Num breve regresso a Portugal, o grupo roda os videoclips de «Vem» e «O Mar» (realização José Pinheiro), e filmam parte da sua participação no filme de Wenders. Os novos temas são apresentados num concerto memorável no centenário Mosteiro da Batalha, depois em Aveiro e Braga, no Brasil (S. Salvador e S. Paulo), na Dinamarca (Copenhaga), e em Bruxelas, e só então o grupo regressa a Lisboa para actuar no concerto de homenagem a José Afonso, no estádio de Alvalade, e no Coliseu do Porto nos primeiros dias de Julho. É aqui que Rodrigo Leão torna pública a sua decisão de abandonar o ritmo intenso dos Madredeus para se dedicar ao seu trabalho a solo. No prazo de uma semana é substituído por Carlos Maria Trindade, que acompanha de imediato os Madredeus para uma curta digressão por Espanha: Vigo, Coruña, Salamanca, Bilbao, Donostia, Saragoza e Murcia. Até ao fim de Agosto visitam ainda Setúbal, Cascais, Óbidos, Portimão, Nazaré, Montemor-o-Velho, Tomar, Viseu, Viana do Castelo, Funchal (Ilha da Madeira) e Ponta Delgada (Açores), antes de regressarem a Lisboa para um pequeno concerto de apresentação à imprensa internacional convocada pela EMI. Depois regressam à estrada para breves apresentações nos países onde o disco foi distribuído: Espanha, Bélgica, Itália, Holanda, Alemanha, França, Escandinávia e Bélgica. No início de Outubro voam para a sua segunda temporada de concertos no Japão (Tóquio, Osaka, Nagoya, Sagamiomo e Sendai), onde são felicitados pela família do Imperador. Regressam pela Suécia (Estocolmo), Inglaterra (Londres, South Bank Centre), Bélgica (Gent, Neerpelt e Bruxelas), actuam de novo em Amsterdão, e depois fazem uma incursão pela Alemanha (Munique, Hamburgo, Berlim, Estugarda, Frankfurt), pela Grécia e por França, antes de regressarem a Lisboa para uma semana de concertos no Centro Cultural de Belém, em Dezembro, perante um público em êxtase. Na última noite, Teresa Salgueiro e os Madredeus começam, finalmente a revelar as canções do «álbum oculto», o da banda sonora do filme de Wenders, que se virá a chamar «Ainda». Na semana do Natal, todos os álbuns dos Madredeus estão no Top-20 da Associação Fonográfica Portuguesa, o que constitui um feito inédito na história discográfica nacional. O grupo espera, com grande ansiedade, um período de férias.
1995
Em Janeiro, as curtas férias dos Madredeus foram interrompidas pela vinda de Wim Wenders a Lisboa para rodar dois videoclips com os temas  «O Sol da Mouraria» e «Alfama». Para o primeiro utilizaram-se as instalações da Companhia de Dança de Lisboa; para o segundo, um velho eléctrico da Carris e o seu velho percurso pelo bairro de Alfama. Três dias depois, o grupo está de novo na estrada para nova digressão por Espanha, com vinte concertos durante o mês de Fevereiro. As férias são adiadas.
 Em Março é publicado «Ainda», e estreia «Lisbon Story» o filme de Wenders - que escreveu um simpático texto para o «booklet» do disco. Nesse mês os Madredeus fazem 19 concertos em Portugal Continental, culminando no Coliseu do Porto, a 31 de Março e 1 de Abril. Na segunda semana de Abril partem para a Bélgica, Alemanha, Suíça e Holanda. No final de Junho viajam para os Açores, para participarem nas filmagens de um documentário sobre o grupo, realizado pelo holandês Rob Rombout. Regressam a Portugal no final de Julho e, durante o mês de Agosto efectuam uma série de concertos ao ar livre em locais históricos do país, passando sucessivamente pelas muralhas da Vila Nova de Cerveira, a Praça João Franco em Guimarães, o Mosteiro de S. Bento da Vitória no Porto, o Palácio de Queluz, o Palácio de Mateus em Vila Real, e o antigo Picadeiro da Fortaleza de Almeida. Em Setembro vão ao Brasil (de onde regressam deslumbrados com o seu concerto no Parque Ibirapuera, em São Paulo, com orquestra e arranjos feitos por Jacques Morelenbaum, habitual colaborador de Caetano Veloso) e fazem as primeiras apresentações nos Estados Unidos (Nova Iorque, Boston, San Francisco e Los Angeles). Em Outubro regressam ao Japão. Numa breve passagem por Lisboa, actuam a 2 de Novembro no cinema Tivoli, durante o lançamento de «Um Futuro Maior», o livro de Jorge P. Pires com a biografia do grupo. Menos de duas semanas depois regressam ao Brasil. O cansaço acumulado começa a tornar instáveis os afectos entre os músicos. Chegam a Lisboa pouco antes do Natal para um período de férias.
 
1996
O grupo reune-se nos primeiros dias de Janeiro para discutir a renegociação do contrato que o liga à editora. As conversações, praticamente diárias, prolongam-se por quase três meses. Em Abril, o grupo regressa à estrada, para nova temporada de concertos no Japão, na Alemanha, e depois nos EUA. Na manhã em que partem para os Estados Unidos (após um dia e meio em Lisboa), um semanário anuncia o final do grupo - notícia que é prontamente desmentida, ainda durante a manhã, pelos músicos. Regressam a Portugal no final de Junho, e uns dias depois actuam no Festival de Vilar de Mouros. Após o concerto, os seis músicos partem para um período sabático, combinando vagamente encontrarem-se a partir de Setembro para trabalharem os temas do próximo disco. Nada acontece até ao final do ano.
1997
A dissensão parece ter-se instalado, e todo o planeamento das actividades do grupo está em suspenso. Em Fevereiro, Pedro Ayres, Teresa Salgueiro, José Peixoto e Carlos Maria Trindade começam a ensaiar numa sala do Centro Cultural de Belém. No final de Maio, os quatro passam para os estúdios Valentim de Carvalho, em Paço de Arcos, nos arredores de Lisboa, onde aperfeiçoam os novos temas. No dia 6 de Junho é assinado o acordo que consuma a separação com Gabriel Gomes e Francisco Ribeiro. Uma semana depois, o baixista Fernando Júdice - antigo membro dos Trovante, companheiro de Pedro nos Resistência e com uma carreira recheada de peripécias - é convidado a juntar-se aos Madredeus. Nos últimos dias de Julho, a nova formação apresenta-se à imprensa de modo informal, durante três dias de ensaios abertos no teatro Inatel, perto de Lisboa e da praia da Costa da Caparica; nos dois primeiros dias tocam parte do novo repertório e depois disponibilizam-se para conversas com os jornalistas. No terceiro dia tocam todo o novo repertório. Depois partem para os Condulmer Recording Studios, em Zorban di Mogliano, perto de Veneza (Itália), onde, durante o mês de Agosto, gravaram «O Paraíso», o seu primeiro disco com distribuição mundial. 
Como se fosse de novo
 Deve observar-se esta diferença fundamental de critérios: enquanto objecto académico, habituámo-nos a distinguir a cultura entre «alta» e «baixa», de acordo com diferentes e distintas elaborações argumentativas por pensadores tão díspares quanto o aristocrático T. S. Eliot ou os discípiulos marxistas da Escola de Frankfurt. E no entanto, quando tomamos a cultura no seu sentido vivencial, quotidiano, popular, utilizamos diferentes critérios - nomeadamente os que nos permitam distinguir se ela é «boa» ou má».
 Mas será «boa» ou «má» em relação a quê? Avancemos uma hipótese preliminar, a de que a cultura popular (e a música popular, que é, sob diversos aspectos, a sua face mais visível e industriosa) se revela boa quando é «adequada» aos nossos padrões de vivência do quotidiano e à consciência que temos do mundo; e má, quando do seu consumo não deriva qualquer alteração significativa em ou outro desses objectivos. Aí radica o sentido político da cultura popular, e a sua inegável mais-valia patrimonial - nessa partilha colectiva de alguns valores e de um sentido comum. Uma canção, como Pedro Ayres Magalhães gosta de recordar, assinala assim um momento particular. Uma «boa» canção é, quase sempre, aquela que condensa nos seus estreitos limites o retrato minimal de toda uma época.
 Nesta sua renovada formação, as novas canções dos Madredeus  voltam a ter essa ambição, essa atitude. Correspondem «a um período, a um sentido colectivo, a um discurso produzido na mesma época, ou ao uso de determinados materiais». E também a uma tomada de posição, pública, clara, nítida. Agora. Reflectindo ainda um certo património nacional - ou determinadas «atitudes poéticas da canção popular portuguesa» - procuram também a sua adequação a uma certa família de vozes planetárias. Foram gravadas em Veneza, uma cidade antiga e cosmopolita, lugar onde o real e o imaginário se confundem a cada passo. São canções que falam da nossa época no mundo, do que nela está presente e ausente; o que temos e o que deveríamos ter; onde estamos e para onde poderemos dirigir-nos. Como toda a arte, também estes movimentos sonoros e estas palavras em movimento procuram atingir pelos seus próprios meios o objecto mais longínquo e quimérico. Um grande acordo. Um grande acorde. Um coro unânime. Um conhecimento do tempo que se transmita através do tempo, mas que possa ser recriado a cada dia - sempre que nos apetecer cantar.
Jorge P. Pires
Agosto 1997